O dia já está chegando ao fim
Vou sair daqui
Muitos no caminho...
Muitos no caminho
Perdem o brilho da viagem
Pelo simples fato de ignorarem
Os detalhes da jornada.
Fixam-se na chegada, no fim,
Querem acabar logo, chegar.
Apressados incautos, tolos,
Corredores incansáveis.
É o caminho que importa, a caminhada!
Os insensatos e obstinados,
De tanta pressa tropeçam,
Levantam-se e se vão, em vão.
Sem saber que o melhor está em cada passo que dão,
Nas nuances, nos pormenores,
Em pequenas plantas, pedras,
Paisagens e horizontes.
A vida dividida em partes,
Pequenas e disformes,
Acidentes que trazem em si a beleza,
Minúsculas partículas que formam o todo.
A vida é como este caminho.
Toda cheia de saliências.
Algumas pessoas passam direto,
Outras param, observam, aprendem e aproveitam.
Se você, porém, anda buscando fins
Que deem sentido à sua vida, desista!
Não existe Fim!
A vida se vive no caminho.
Há Esperança!
Vendem-se sonhos!
A banquinha está aberta,
Na feira, ali perto do Poeta
Os escritos pendurados em cordel
Feitos de papel jornal reciclado
Todos produzidos à mão, à noite
Enquanto todos dormem, os sonhos acontecem
Uns são apenas fumaça, vapor
Outros irão virar realidade, labor
Vendem-se sonhos diz o cartaz,
Qualquer um que chega é capaz
De comprar e se aventurar
Não custa muito, apenas alguns vinténs
Se fizer cara feia e desdéns
O bonde da história passa
E a vida leva junto toda graça
Sem sonhar o ser humano esmorece
E de tristeza e enfado apodrece
Sua vida e história desaparece
Por isso venham logo e saciem-se
O tempo voa por isso apressem-se
Presente!
Lindo embrulho, envolvendo joia rara,
Com um laço meticulosamente atado,
Vermelho com detalhes em prata,
Pequeno e delicado,
Contendo um vislumbre do futuro,
Envolto em uma singela almofada,
Com um significado profundo e emocionante.
Oferecido em hora oportuna,
Numa atmosfera de suspense e apreensão.
Mãos suadas, nervosismo...
Um simples envólucro contendo um símbolo
De um dos sentimentos mais nobres do universo,
[...]
A Floresta da Vida
Por enquanto...
serão apenas migalhas de pão
largadas pelo caminho nesta floresta
densa e emaranhada
que se chama vida,
na qual nos encontramos e nos perdemos
pelos vários labirintos a nós apresentados.
[...]
Auto-retrato
Um homem em constantes mudanças,
Se reinventando a cada dia, aprendendo.
Cores, pasteis, pinturas e pinceis.
Pessoas e amores, dilemas e vitórias,
Melhorar, mudar, misturar, movimentar.
A obra ainda inacabada, com defeitos,
Falta muito para ser completada.
Assim é um retrato pífio da realidade,
Fria e crua, descarada e nua.
Apresentada em partes, pequenas para uns,
Partes generosas para outros.
Um dia será perfeita, finalizada,
Até lá, muita tinta vai borrar,
Muita água vai rolar, até acabar.
Vida anda, vida corre, um dia a gente morre.
E quando for a minha vez, quero um paletó xadrez...
Que o meu retrato seja apenas um borrão,
Na memória dos que foram e virão.
¿Hasta cuándo?
Às Vezes
Pego meu violão
Para arranhar umas cantigas.
Coisa pouca, só ensaio.
O que eu gosto mesmo é ouvir,
Ouvir o som das cordas arpejadas,
Aquele sonido meio triste, meio melancolia.
Som que traz saudades de antigamente,
Alguma canção trigueira de lual,
Lembra velhos amigos, amores antigos.
Faz o ouvido ficar tinindo...
Sem o barulho exterior
Traz à alma calmaria e ao espírito alento,
Paz e conforto ao corpo cansado e oprimido.
Que doçura de momento!
Só eu e minha viola...
Conversando baixinho, batendo um papo.
O tempo até parece que se esquece da gente.
Às vezes é urgente.
O importante para mim é a afinação,
Instrumento bem afinado produz melodia pura e harmoniosa.
Uma nota com a outra,
Um acorde chamando outro.
Equilíbrio e ritmo.
O que nos faz seguir adiante nesta vida.
Conforto e desafios para não se perder no compasso.
Às vezes perco o passo,
Aí recomeço o ensaio.
Sincronicidades
A sombra no muro
Antes e depois do depois
O piano e o teatro
Num velho teatro, quase abandonado,
Tocava um piano de cauda já antigo e surrado,
Clássico.
Instrumento feito em madeira de lei,
Da época das grandes sinfonias...
Devia ter mais de século.
Soava uma melodia envolvente, clássica, precisa.
Rebuscada.
Complexa e profunda.
Ao mesmo tempo bucólica.
Triste, distante.
Melancólica.
O velho piano ainda produzia seus tons
Com muita nitidez e harmonia.
Sons que ecoavam por todo o ambiente.
Embora Já desgastado pelo tempo.
O tempo fugaz que não volta.
Mesmo com suas paredes de madeira rachadas,
Sua música ainda era sublime.
As notas agudas e graves se misturavam umas às outras
Produzindo efeitos sonoros magníficos,
Dissonâncias perfeitas,
Discrepantes com a tristeza do lugar,
Um teatro quase abandonado e feio.
Tudo mórbido e sem vida,
Exceto pelas ondas melódicas
Preenchendo aquele quadro melancólico.
A música como cura para os recônditos escondidos e feridos da alma.
Este trabalho o velho instrumento executava
Com exímia habilidade e experiência.
A arte de musicar os versos e as notas
Contidas em composições intrincadas e diversas,
No passo do compasso, lentamente mas preciso,
O bater das teclas dava o tom,
O andamento.
O velho piano ainda encantava
E soava bela música,
Estava alegre por poder ser útil,
E o antigo lugar emocionava seus presentes ouvintes mais atentos
Acalentando a alma.
Com maestria o velho piano
Mostrava que o tempo é relativo.
Seu talento era claramente perceptível,
Provando que a experiência e a maturidade,
Quando bem afinadas,
Trazem resultados maravilhosos.
O relógio na torre
Olho para a janela aqui do escritório,
Vejo um relógio no alto de uma torre,
Mostrando o tempo passar.
O tempo voando lá fora e aqui
A sensação é de se estar numa cápsula temporal.
Preso, apertado, enterrado, esquecido.
Aqui dentro tudo é lento, moroso,
Os trabalhos, as redes, os sistemas, as máquinas...
Os relacionamentos são superficiais, formais.
Os vínculos frágeis como que amarrados por barbante.
As pessoas parecem estar vivendo em fugas,
Fogem de realidades, se escondem de confrontos.
Vão e vêm pelos corredores, atarefadas.
Como formigas em fila, todas pelo mesmo caminho.
São movidas por informações, (bochichos), fofocas.
Uma conversa aqui, outra acolá, futilidades.
Um café, dois, três e o dia ainda está só começando.
Só assim para manter a compostura.
O estresse parece que é um parasita permanente aqui.
Passa de um para outro, infecta a alma do indivíduo
E brinca com os ânimos de todos.
Já está virando fiel companheiro até dos mais tranquilos.
Lá fora, o céu azul se confunde com os prédios,
E as nuvens encobrem o horizonte.
É lá onde a vida acontece,
O risco seduz e convida a todos a experimentarem uma nova vida.
Provar do novo, crescer.
Vamos lá?!
Minhas palavras são suas

A combinação delas,
A disposição, os emaranhados, os enredos,
Os trechos, os excertos, as frases,
As linhas, as reticências, tudo! tudo seu.
Dependo disso para viver,
De uma palavra (qualquer) sua, para escrever.
Um sim, ou um não, que importa?!
Vivo destas interligações textuais e semânticas...
Discursos e versos, poemas e prosas, causos e contos.
Em minhas veias correm letras, DNA de ideias, estórias.
Alfabetos e morfemas... meu café da manhã.
Na sintaxe me guio para sobreviver, se faz sentido? Fica claro.
Se não, corrijo e reescrevo. Minha história, meus finais.
Minhas tramas e seus ápices de suspense e drama.
Se estou triste, invento uma anedota,
Misturando (várias) palavras com humor
Para espantar a dor.
Sou assim... feito escritor,
Meio bobo, meio louco, um terço de ator.
E o amor?!
Esse está na página 54,
Sublinhado com ardor.
E a paixão?! de tão quente queimou a biblioteca, inteira!
Só sobrou cinza, para desenhar as nuvens,
Mas aí já é outra estória,
Que não vou contar aqui.
[...]






