Poesias, somente poesias



Poesias são gritos silenciosos
Das indignações uterinas
E das dores do parto
De nascituros mortos e sem esperança...
Através delas as palavras trazem o rebento ao mundo.
A este lhe dão alimento, acalento,
Consolo e abrigo e do inferno o trazem à vida,
Com um cobertor de esperança e fé,
Comida que lhe servirá de solo para o cultivo do amor vindouro,
Este que só vem na maturidade dos pensamentos,
Na aurora dos bons tempos
Onde já não importam as formas nem a matéria,
Apenas as almas e as mentes,
Cada vez mais abertas e sedentas,
Assim nasce a poesia,
Na madrugada das dores, onde não há mais cores nem amores,
Junto com os poetas... e os loucos.

O caminho da nau no mar...


Não produz rastro algum,
Compassiva e tranquila,
Com seu calado e imponência,
Navega suave como uma pluma no ar...
Cortando as águas com vontade
Sem deixar marcas por onde vai
Somente ondas que se dissipam
Ondulações que desaparecem

Assim é o navio em seu curso
Percurso certo, guiado pelo céu,
As estrelas conferem sua precisão
No astrolabo e no pulso firme
Pelas mãos do timoneiro avança sem medo
Confia na experiência e na força
A embarcação rasga o lençol fino e disperso
Separando as águas e seguindo em frente

Na proa e no convés, apenas o vento a assoviar
Barco forte e desafiador
Lança suas quilhas e hélices sem dó
Cruza de um continente a outro
Diminui as distâncias que separam os mares
Leva mantimento aos de além-mar
Marinheiros trabalham e operam
Para a fortaleza flutuar

Fortes e bravos, corajosos e disciplinados
Encantam as velas e as poem para funcionar
Direcionam o navio para onde deve ir
dominam o vento e domam o mar
Nas chuvas permanecem firmes
Nos redemoinhos flexíveis
Nas intempéries constantes
Nas ondas suaves determinados

Nas margens imóveis e firmes
Que abrigam as casas dos marinheiros,
Terra à vista! Amores à espera do amor.
Doces e altivas mulheres os aguardam
Mães, filhas, esposas e amantes,
Aguardam ansiosas estes viajantes
As marcas deixam em seus corações
Redemoinhos de paixão, misto de dor


O dia em que beijei uma flor



Ontem beijei uma flor.
Uma rosa de cor escarlate,
Vermelha como sangue,
Doce e pura como o mel.
Macia como o veludo,
Suave como uma pétala
Frágil e singela, delicada.
Assim era a flor do jardim,
Sua boca sedosa e branda.
Seus beijos inebriantes
Faziam da noite fria um verão,
Do frio congelante um fogo,
De um momento um vulcão.
Esqueci-me até do tempo,
Adentrei à eternidade fugaz.
De repente o passado se apagou,
Minhas ideias desapareceram.
Encontrei minha casa,
Descobri meu lar...

Destinos


Não acredito em destino
Porém, os dez tinos que você tem
Me fazem acreditar em destinos
E assim me destino a você
Numa viagem sem volta
Só que agora ao teu lado

Destino-me agora ao amor
Não como destino ou desatino
Apenas o tino, o brio e o fogo
Se a mil destinos fosse
E em escrutínios me perdesse
Em algum momento a vida

Entre chegadas e partidas
Seguiria bela e intrínseca
Intacta apesar das mudanças
E destinos trocados
Na próxima cidade chegaria
Com novidade no ar

Porém no jogo de dados
O acaso intervém aleatoriamente
Criando novos destinos
Uns sem sentido algum
Outros sem futuro ou fim
E assim o amor se estilhaça em partes

Pedaços e instantes ao léu
Fragmentos perdidos no céu
Parcas tecem teias Intrincadas
Fiadas com o ouro do Tempo
Que ora dão vida e ora a tragam
Alegrias, desilusões e sonhos cruzados

Nesta imensa roda da vida
Gigante em sensações e dúvidas
No sobe e desce constante
Na hora certa nossos destinos
Encontrar-se-ão novamente
E nosso tempo enfim chegará

O tempo (este velho sorrateiro)


Como diminuir sua velocidade?!
Acrescentando poesia aos seus momentos
Seus instantes com cor e amor
Com versos e rimas
Poemas e sentimentos
Assim ele passa devagar
Quase uma eternidade
Nas mãos vorazes de um amante
Na pena inspirada do apaixonado
Ali as palavras saltam como que a formar a amada
E com linhas e desenhos formam uma faísca
Um lampejo do que o sôfrego louco está sentindo
Em suas veias corre fogo
E seu sangue fervilha
Por algo que não consegue descrever
Uma sensação nauseante
Pensamentos felizes
Emoções delirantes
Antes tivesse se mantido longe do perigo
Agora é tarde demais
Já se contaminou
Enquanto escreve o mundo para
Cada letra uma efusão de memórias
Com veemência segue seu destino
Com palavras revive o momento
E o tempo se eterniza
Ali entre um ponto e uma vírgula
Sua mente não descansa
Precisa de mais papel para escrever
Mais poesia destilar
Mais amor a derreter
Nesta alquimia mística que se chama paixão
A tinta acaba, o fogo, porém, não apaga
Necessita urgente ver sua paixão
Seu amor em forma de mulher
Sua vida, seu ar, seu alimento
Revive sua sina somente ao vê-la
Ao tocá-la chega a morrer
E ao beijá-la sobe aos céus
É o vício que lhe acomete
Perdido no tempo e no amor
Se encontra com a luz
E ali quer viver e morrer ao mesmo tempo
Para sempre
Nos lábios quentes de sua amada
Com sua alma eternizada
E o tempo já não mais existe

A velha máquina de escrever




Ali, perdido por entre as letras
De uma velha máquina de escrever
Letras enigmaticamente bem escolhidas
Separadas por consoantes e vogais
Espaços engendrados e milimetricamente dispostos
Me encontro longe de você
Nossas iniciais estão alhures
Aquém de nossos desejos, nossas vontades,
Muito além do horizonte visível, do palpável
Teclas distantes e espaçadas
Me vem um pensamento plausível
No grande arco que nos impulsiona a marcar o papel
Neste enorme e vivo carrossel
Onde cumprimos fielmente nossa missão
Nós brincamos de pega-pega
Porém quando um vai o outro vem
Quando um vem o outro já foi
E assim sucessivamente, toda vez que o Grande Escritor nos move
Às vezes quase não a vejo, quase esqueço-me de ti
Só sei que estás em algum lugar, neste mundo imenso
Sinto que de alguma forma estamos ligados
Sua marca na folha e as combinações que fizemos
De vez em quando nos juntamos em sílabas, morfemas
Marcas que contam uma história
Pequenos traços que no final emocionam
Detalhes que nos fazem rir e chorar.
Um dia nos cruzamos nesta abóbada metálica
E ali nossos corpos se chocaram
Senti como se faíscas saíssem do meu corpo
O embate foi tão forte que tudo parou
Nos congelamos em pleno ar
E ali ficamos, atônitos, sem palavras
Assim como quando os olhares se encontram
E o mundo pára de girar, o tempo chega a congelar
O Grande Artista precisou intervir
E nos separar para que vivêssemos,
Separados porém, vivos, cada um em seu canto
Cada um com seu trabalho, seu encanto
Seguir marcando o tempo e o espaço
Em meio a tudo isso fazer sentido, fazer valer,
Em frases e versos bem delineados, escritos
Vez ou outra manchando o papel e borrando as letras
Outras criando poesias, encantando multidões
Será este nosso destino final?
Será esta nossa sina afinal?
Será este nosso enfado fatal?
Nos desprender deste mundo e bater asas assim?!
Melhor seria ser livre, desprendido de tudo
Leve e solto, independente e só
Sim, só e somente só, como viajantes solitários
Sozinhos, longe do ninho, longe de casa
Como uma gaivota a voar tendo o mar como lençol
De vez em quando sonho contigo
E de sobressalto acordo
Lembro-me do choque, do embate quase mortal
A dor me deixou atordoado
E ainda me sinto mal
Naquele momento de glória e paixão
Naquele instante de regozijo e medo
Deveria ter fugido contigo
Para nunca mais voltar
Viver separado é morrer
Morrer aos poucos para mim mesmo
Sem você não sei respirar
Finjo ser um sábio, mas no fundo sou um louco
Obstinado por algo que não posso ter
Obcecado por algo que não posso ser
Destinado eternamente nesta vida a sofrer
E talvez nunca mais, nem por um segundo, te ver.
Este é o meu enfado, minha rotina
Preso neste corpo com esta missão a cumprir
Escrever estórias e contos, sem reclamar
Obedecer apenas e resoluto marchar
Para sempre esta vida fútil abraçar