O contador de estórias
Andava pela cidade
Com seu giz e sua mente
Escrevia alegremente.
Nas sarjetas e nas ruas,
Nas calçadas e nos muros.
Não se importava,
Lá estava ele,
A escrever histórias,
Palavras jogadas ao chão.
Sem razão ou lógica,
Sem métrica ou rima.
Versos em ladrilhos,
Estrofes em lombadas.
O solitário escritor de alma simples
Apenas seu singelo coração
Derramado em forma de letras.
Cada palavra uma etapa,
Cada vírgula uma perda,
Cada ponto um fim.
Se acostumou assim
Sem eira nem beira,
Sua vida misturada na sujeira.
De joelhos, encolhido, escrevia.
Enquanto a cidade gemia,
O barulho não o desconcentrava,
As pessoas não o compreendiam.
E outro dia se passava,
A chuva vinha e tudo lavava,
Sua vida, sua história, sua luta.
Mesmo sem saber
Recomeçava tudo outra vez.
Quem sabe alguém um dia irá ler
E, finalmente entender...
O Contador de Estórias
Mendigos
Pobres mendigos, almas nuas,
Andarilhos errantes nas ruas.
Abandonados à própria sorte,
À espreita da iminente morte.
Utopia desejada só aumenta,
A cada passo uma tormenta.
Vivem sem casa e sem teto,
Dormem ao relento abjeto.
Esperam ávidos o momento
Quando não haverá mais tempo,
Ao deixarem este corpo vil,
Esta casca putrefada e frá-gil
Unir-se-ão aos anjos nos céus
E ajudá-los-ão a cuidar dos seus.
Pessoas decaídas e esquecidas
Que o mundo não deu guaridas.
Seguem a passos cegos e lentos
Até virarem poeira aos ventos...
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