A velha máquina de escrever




Ali, perdido por entre as letras
De uma velha máquina de escrever
Letras enigmaticamente bem escolhidas
Separadas por consoantes e vogais
Espaços engendrados e milimetricamente dispostos
Me encontro longe de você
Nossas iniciais estão alhures
Aquém de nossos desejos, nossas vontades,
Muito além do horizonte visível, do palpável
Teclas distantes e espaçadas
Me vem um pensamento plausível
No grande arco que nos impulsiona a marcar o papel
Neste enorme e vivo carrossel
Onde cumprimos fielmente nossa missão
Nós brincamos de pega-pega
Porém quando um vai o outro vem
Quando um vem o outro já foi
E assim sucessivamente, toda vez que o Grande Escritor nos move
Às vezes quase não a vejo, quase esqueço-me de ti
Só sei que estás em algum lugar, neste mundo imenso
Sinto que de alguma forma estamos ligados
Sua marca na folha e as combinações que fizemos
De vez em quando nos juntamos em sílabas, morfemas
Marcas que contam uma história
Pequenos traços que no final emocionam
Detalhes que nos fazem rir e chorar.
Um dia nos cruzamos nesta abóbada metálica
E ali nossos corpos se chocaram
Senti como se faíscas saíssem do meu corpo
O embate foi tão forte que tudo parou
Nos congelamos em pleno ar
E ali ficamos, atônitos, sem palavras
Assim como quando os olhares se encontram
E o mundo pára de girar, o tempo chega a congelar
O Grande Artista precisou intervir
E nos separar para que vivêssemos,
Separados porém, vivos, cada um em seu canto
Cada um com seu trabalho, seu encanto
Seguir marcando o tempo e o espaço
Em meio a tudo isso fazer sentido, fazer valer,
Em frases e versos bem delineados, escritos
Vez ou outra manchando o papel e borrando as letras
Outras criando poesias, encantando multidões
Será este nosso destino final?
Será esta nossa sina afinal?
Será este nosso enfado fatal?
Nos desprender deste mundo e bater asas assim?!
Melhor seria ser livre, desprendido de tudo
Leve e solto, independente e só
Sim, só e somente só, como viajantes solitários
Sozinhos, longe do ninho, longe de casa
Como uma gaivota a voar tendo o mar como lençol
De vez em quando sonho contigo
E de sobressalto acordo
Lembro-me do choque, do embate quase mortal
A dor me deixou atordoado
E ainda me sinto mal
Naquele momento de glória e paixão
Naquele instante de regozijo e medo
Deveria ter fugido contigo
Para nunca mais voltar
Viver separado é morrer
Morrer aos poucos para mim mesmo
Sem você não sei respirar
Finjo ser um sábio, mas no fundo sou um louco
Obstinado por algo que não posso ter
Obcecado por algo que não posso ser
Destinado eternamente nesta vida a sofrer
E talvez nunca mais, nem por um segundo, te ver.
Este é o meu enfado, minha rotina
Preso neste corpo com esta missão a cumprir
Escrever estórias e contos, sem reclamar
Obedecer apenas e resoluto marchar
Para sempre esta vida fútil abraçar