Sobre o Tempo e a Poesia


O tempo sem poesia
não passa de enfado,
pesado, amargo e algoz.
Que seria desta vida atroz?

O tempo assim se perde,
se distancia da magia,
se esconde das lembranças
como criança que perdeu a infância.

Se, no tempo das coisas,
não se enaltece a beleza,
não se figuram as letras
e não se formam as poesias,

logo, ao chegar da noite
pouco depois do Sol se por,
tudo se apaga e se esvai,
as cores, as flores, os amores.

E de tanto esperar,
o tempo se encarrega de levar
embora a memória mais pura
do que aconteceu.

Deixa um amargo na boca,
um féu indigesto,
sem sabor, sem calor,
sensação que se foi

sem registros, sem marcas,
sem vestígios, nem pistas.
Tudo se acaba sem poesia:
a tristeza e até a alegria.

[...]

Exibidas


Elas estavam fora de si
brincando de pique-esconde
bailando para lá e para cá
como num baile à fantasia
se disfarçavam a todo momento
em um mero vislumbre
apresentavam-se como as mais belas
um simples descuido
e lá se iam elas, fugidias
de tímidas não tinham nada
exibidas sim, poderosas e imponentes
inalcançáveis e pomposas
pareciam até orgulhosas
de tamanha beleza e luz
irradiavam brilho sedutor
com suas curvas e olhares
encantavam multidões
pobres dos que tentaram se aproximar
foram escaldados os gatos
fulminados pelos olhares
como raios numa tempestade
maliciosas e sedutoras
com suas plumas de algodão
tomaram o lugar da festa
viraram o show do lugar
fizeram o palco parecer o céu
e elas de tão portentosas
se fingiam de nuvems

[...]

O Poeta

O Poeta está preso
Foi pego na esquina com umas palavras falsificadas
Plagiou quem não devia, roubou palavras de outrem
Autuado em flagrante, o meliante
Diante do juiz não teve atenuante,
Sua pena foi dada com um agravante
Se continuasse assim por diante
Seria condenado à morte extenuante

O Poeta é um viciado
Em drogas de palavras e rimas
Sem dinheiro, pobre e do sistema dependente
Quase tudo que escreve precisa combinar com o verso anterior
Fica horas imaginando uma cena de terror
Sem pensar que seu mal hábito é o que mais causou a dor
Nos demais que a ele um dia lhe deram amor
Nem mais se lastima pois está perdido em seu torpor

O Poeta tem família, mulher e filho
Só que os abandonou na rua da amargura
Sem passado e sem memória já não sabe o que é amar
De tão alucinado que ficou se esqueceu de viver
A cada verso que declama, só pensa em morrer
Agora atrás das grades na sombra lúgubre foi se ver
Lá no cárcere onde nada mais importa ter
Somente lágrimas e arrependimentos sorver

O Poeta é um louco
Não, que nada, louco é pouco,
Ele é mesmo um burro, um cretino
De tanto usar as palavras acabou sem elas
Sozinho num canto escuro no fundo das celas
Ele fuma seu cigarro misturado com sequelas
Desvairado e sujo, só se lembra delas
As mulheres que lhe foram como cadelas

O Poeta está morto
Já não serve pra nada, sem pena para escrever
Inútil se faz agora enjaulado e só
Usa as unhas para rabiscar uns riscos na parede
Sem voz e sem ideias, definha lentamente inerte
Lá fora da cadeia ninguém mais se lembra dele
Seus escritos foram queimados e arrancados da pele
Seu sangue nem para contar história serve

O Poeta já era
Nas nuvens desenhou suas poesias
No vento declamou seus sonetos
Nos ouvidos sussurrou suas letras de apaixonado
Não se encontra em livros o seu legado
Apenas na memória do amigo mais chegado
Que nem lembra mais se fora verdade o seu fado

Se em sua fala havia vírgula, ponto ou asterisco no lado

No caminho da montanha



Um Dia te levarei para a Montanha, ver o Horizonte de Longe, do alto do cume, em contato direto com a Natureza.
Um Lugar que fala por si, sem necessidade de Palavras, apenas o brilho Feliz dos olhos a observar e absorver tudo em volta.
Longe de tudo, distante do barulho Infernal da(s) Cidade(s), um Recanto afastado, separado, escolhido e esculpido pelo Criador.
Lá, onde tudo se esvai, a Nuvem ao longe se achega aos pés do Monte e ali o cobre como um Véu, em sua densa névoa.
Tão alto penhasco nos acolheu, até parece que a Gente voa, ao vislumbrar a pequenez Humana comparada ao Todo.


Havia poucas Painas pelo Planalto íngrime. Poucas e tímidas, rosadas e solitárias, não menos lindas e apreciadas, porém.
O Verão chuvoso as afugentou destas Pradarias, embora algumas, mais corajosas, apareceram para enfeitar a Paisagem.
No Caminho davam Passagem como que convidando às mais incríveis Aventuras.
Ao balançar dos Ventos abafados da Serra, assobiavam uma Canção anciã e misteriosa, dançavam extenuantes.


Os pequenos Detalhes pelo chão davam o Descanso necessário para aguentar a Jornada.
Uma Porta do Tempo para o Coração respirar e ter a Energia para continuar.
As Folhas caídas, aos poucos se esvaindo da Vida e mudando suas Cores para embelezar o Ambiente.
Dispostas Aleatórias em meio ao Caos da Carreira, carreiro pedregoso e perigoso, capcioso e escorregadio.


As pequenas coisas que se desenham à Frente, Avisos e Sinais, arbustos e espinhos. Cuidado!
Detalhes despercebidos por olhos absortos, mato, capim, plantas, líquens, fungos e Terra, areia e sujeira.
Estão todos lá, por algum Motivo, alguma Razão, um Desígnio Divino, quem saberá?!
[Os Elementos dispostos, Terra, Água, Fogo e Ar em Harmonia e Sincronia.]


Onde há Vida há Morte, onde antes crescia um galho Forte agora se fora, ainda bem que a Natureza encontra seu jeito de contornar as Coisas, os Problemas.
Sejam os Erros Humanos ou Acidentes Naturais, a Vida encontra seu modo de seguir Adiante, para cima, para Sempre.
E a Graça que há em tudo isso é que tudo é feito com muita Avidez e Pompa, Beleza e Simplicidade, Delicadeza e Suavidade, Ensinando Lições inestimáveis.
A Prova de que estamos de Passagem e o Toque Superior nos encontra em Lugares estranhos e incomuns, inesperados.


Como que uma sátira, um escárnio bem elaborado, ali, no Meio do Nada, crescendo na Rocha, uma pequena Lembrança.
Não desista! Não desanime! Não esmoreça! Não se entregue! Vá em frente! Siga adiante! Para o alto e avante!
Uma pincelada do Amor, em Cores e vivificando tudo ao redor, em gotas de suor e resquícios do Orvalho, algo brilha mais que Tudo.
Uma Chama que chama, que clama, que declama, que grita, que escreve na Luz uma Imensidão assustadora, que nos faz seres Pequenos.
Pedaços, Partes, pulgas minúsculas, Peças intrincadas e complexas do Grande Quadro, o quebra-cabeças chamado Universo.


De repente, o Velho se faz Novo, o novo envelhece, o velho adoece e seca, aceita a Morte e dá boas-vindas ao Eterno.
O Ciclo maravilhoso da Existência, da Nobre Pena que pagamos com o Ar que respiramos, com os Sonhos que almejamos, com os Pensamentos que nos prendem.
Numa simples Imagem do Todo nos Encontramos e nos Libertamos, nos Tocamos e nos Separamos, cada um em sua Própria História. Viva!
Enquanto uns escalam a Pedra, outros já se vão, descem e sobem, num frenesi alucinante, sem contar os instantes, vivos dormentes.


Ao Final, tudo não passou de um Momento, ínfimo e insignificante, um Lapso, uma piscada de olhos.
Mas, valeu cada Passo, cada Inspiração e Transpiração, cada Contato e Sentimento.
A Vontade é de não voltar mais de lá, ficar neste Sonho para sempre e se fundir com a Criação.
Porém, o Sonho acaba e o Sono se vai, o Tempo bate à Porta e convida o Amanhã para que chegue logo.
É hora de retornar ao Começo e fazer tudo outra vez, semana que vem, mês que vem, amanhã talvez.

[...]