O Poeta está preso
Foi pego na
esquina com umas palavras falsificadas
Plagiou quem
não devia, roubou palavras de outrem
Autuado em
flagrante, o meliante
Diante do
juiz não teve atenuante,
Sua pena
foi dada com um agravante
Se
continuasse assim por diante
Seria
condenado à morte extenuante
O Poeta é um viciado
Em drogas
de palavras e rimas
Sem
dinheiro, pobre e do sistema dependente
Quase tudo
que escreve precisa combinar com o verso anterior
Fica horas
imaginando uma cena de terror
Sem pensar
que seu mal hábito é o que mais causou a dor
Nos demais que
a ele um dia lhe deram amor
Nem mais se
lastima pois está perdido em seu torpor
O Poeta tem família, mulher e filho
Só que os
abandonou na rua da amargura
Sem passado
e sem memória já não sabe o que é amar
De tão
alucinado que ficou se esqueceu de viver
A cada
verso que declama, só pensa em morrer
Agora atrás
das grades na sombra lúgubre foi se ver
Lá no
cárcere onde nada mais importa ter
Somente
lágrimas e arrependimentos sorver
O Poeta é um louco
Não, que
nada, louco é pouco,
Ele é mesmo
um burro, um cretino
De tanto
usar as palavras acabou sem elas
Sozinho num
canto escuro no fundo das celas
Ele fuma
seu cigarro misturado com sequelas
Desvairado e
sujo, só se lembra delas
As mulheres
que lhe foram como cadelas
O Poeta está morto
Já não
serve pra nada, sem pena para escrever
Inútil se
faz agora enjaulado e só
Usa as
unhas para rabiscar uns riscos na parede
Sem voz e
sem ideias, definha lentamente inerte
Lá fora da
cadeia ninguém mais se lembra dele
Seus
escritos foram queimados e arrancados da pele
Seu sangue
nem para contar história serve
O Poeta já era
Nas nuvens
desenhou suas poesias
No vento
declamou seus sonetos
Nos ouvidos
sussurrou suas letras de apaixonado
Não se
encontra em livros o seu legado
Apenas na
memória do amigo mais chegado
Que nem
lembra mais se fora verdade o seu fado
Se em sua
fala havia vírgula, ponto ou asterisco no lado







