Preciso de um livro

Preciso de um livro.
Na verdade, que não foi escrito ainda.
Só existem rascunhos.
Só pensamentos.
Citações, excertos.
Ideias de outros.
Palavras soltas.
Voando ao vento.
Desprendidas.
Como folhas de outono.
Livres.
Flutuando, caindo.
Balançando frágeis, inocentes, brincando umas com as outras.
Como crianças inocentes, no final do dia, correndo pela rua.
Leves e soltas, quase secas.
Pousando no chão.
Sem rumo.
Sem direção.
Sem sentido.
Só um sonho.
Como uma melodia qualquer.
Vagando.
Soando pelo ar, ecoando na lembrança do compositor.
Frases desconexas, ébrias.
Estapafúrdias.
Irresponsáveis.
Inconsequentes.
Apenas uma introdução de uma estória qualquer.
Um enredo incompleto.
Uma trama difícil...
Sem um suspense, uma tensão, um problema.
Estes fragmentos estão escondidos.
Numa gaveta sombria, na alma de alguém.
Um escritor, uma pessoa, cheia de anseios e sonhos.
Com medos e temores, decepções e ilusões.
Vivências e amores.
Tanta experiência, tanto tempo, tanta vida.
Tudo guardado, alojado no mais profundo íntimo.
Este autor ainda não chegou a tocar em sua pena.
Não se arriscou a delinear os traços de sua história.
Não conjecturou a importância de se fazer conhecer,
Através de suas palavras, de suas letras entrelaçadas e unidas,
Formando pensamentos e conceitos,
Acalentando a tristeza, dando vida à imaginação,
Alimentando o ego, matando a curiosidade.
Criando personagens, situações, lugares.
Este livro ainda não existe.
Não está manchado pela ganância,
Não tem amores nem dissabores,
Não tem mortes nem alegrias,
Suas páginas estão soltas, espalhadas, vazias.
Simplesmente não é.
Poderia ser um livro de contos, um livro de aventura, uma fábula, um poema, uma palavra somente.
Qualquer coisa, qualquer palavra.
Qualquer letra.
Este livro poderia ser o que quisesse.
Até mesmo uma só folha.
Até mesmo uma só Palavra.
Até mesmo uma só Letra.
Mas ainda não foi escrito.
Não saiu das entranhas do autor,
Está arraigado em seu mais profundo abismo,
Preso por correntes fortes e pesadas,
Amarrado e lacrado em um baú velho,
Envolto por medos e falta de coragem.
Esquecido e banido.
Morto, sem vida.
Se não houver a primeira letra,
A primeira palavra, a primeira sentença, a primeira vírgula e o primeiro ponto.
Se não houver o primeiro passo, a primeira atitude,
O primeiro olhar, o primeiro sorriso, o primeiro Amor, o primeiro beijo.
O livro não irá existir.
Se a vontade não surgir, se a inspiração não aparecer,
O autor irá esquecer, extinguir quaisquer resquícios de sua existência.
O livro não será escrito.
O livro não estará na estante, não será lido.
Não será escolhido.
Não será catalogado.
Não será encontrado.
Não será.
As pessoas terão um vazio, sem explicações.
Serão estranhas, distantes, inimigas.
Uma vida que se foi, não deixou lembranças.
Uma vida sem sentido, sem história.
Uma existência ignorada, vista ao longe, sem valor.
Se o livro não existir, as pessoas vagarão solitárias, sozinhas, sem assunto, sem amigos, sem direção.
O amálgama das palavras e frases, dos suspiros e devaneios que o autor poderia criar, não existirá.
Estes tracejos precisam ganhar vida,
Os morfemas precisam ser conjugados,
Misturados com sufixos e prefixos, enganados, distorcidos, forçados, entortados, destruídos e refeitos.
Os verbos precisam agir, transitar, direta e indiretamente,
Andar, pular, correr, ir e vir, subir e descer,
Nas linhas e nas entrelinhas, pulando de página em página.
Os fonemas precisam soar, cantar, falar, cochichar, fazer a língua se enrolar.
As vogais precisam se misturar às consoantes e a orquestra deve começar.
A sinfonia deve encantar, instigar, preencher, comover.
A cadência e o ritmo devem ditar a marcha das letras e das palavras.
O discurso, a ordem e a semântica precisam se alinhar, formar textos, capítulos.
Os sujeitos e os predicados precisam se encontrar, formar seus pares, dançar.
Dançar ao som da melodia, juntar pontos com vírgulas, espaços e reticências.
Tecer emaranhados de ideias, costurar personagens, envolver os olhos e a mente.
Fazer a alma viajar para longe, separar-se do corpo físico, abstrair-se, projetar-se,
Mudar de dimensão, expandir,
Voar entre as estrelas, passear pelas galaxias, se deixar levar na loucura criativa.
A harmonia dos instrumentos, a hora de cada integrante se mostrar, cada nota tocar, cada acorde entoar.
Tudo precisa movimento.
Os adjetivos devem ser usados, os elogios esbanjados.
Os detalhes e descrições precisam aparecer, explicar, ensinar.
Só assim o leitor será transformado.
Só assim uma estória poderá ser contada.
Só assim uma vida poderá ser narrada.
E os amores se encontrarão, os corações se aquietarão, as almas descansarão.
Este livro deve ser escrito.
Hoje! Agora! Neste instante.
O tempo está passando, o mundo está girando, o ponteiro está correndo.
Não há mais desculpas.
Escreva!

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