Crises vêm e vão, nos pegam de surpresa naqueles dias em que
menos as esperamos. As situações corriqueiras não têm lugar para as crises,
somente a rotina e o enfado companheiro de viagem que mais cala do que fala.
Em momentos de decisões elas aparecem, fazem se conhecidas,
se apresentam para a mente, a consciência, os pensamentos e aturdem, confundem
e oprimem a escolha, a decisão, adiantam o confronto de idéias, a luta
interior, misturam a realidade com os sonhos, atrapalham a rotina e apontam as
falhas do destino.
As crises geram instabilidade, são irresponsáveis,
inconseqüentes, infantis. Induzem ao erro, mentem e enganam as mais sinceras
emoções, intenções, vontades, reflexões, arrasam os planos, a organização e a
concatenação de idéias, ofuscam a visão do que é preciso ser feito, embaralham
a estrutura do conhecimento, da experiência, fazem a teoria parecer prática e
mudam o mundo de cabeça para baixo.
Fazem tudo isso por prazer, um prazer doentio, sem sentido
que quer destruir mesmo, quer fazer quaisquer resquício de sucesso em podridão
sórdida e fétida, sem respeito e sem razão, sem compaixão e sem perdão, somente
o prazer pela dúvida, a alegria da tristeza, a felicidade da desgraça.
Crises são assim.
Crises são como amizades interesseiras, chegam como quem não
quer nada e vão, aos poucos, minando os campos da confiança, se infiltrando nos
campos da necessidade e acabam por sugar o que a amizade tem de melhor, o amor
incondicional.
Parasitas, dependentes, viciadas: crises.
Crises são como insetos. Devoram as colheitas da mente e
cospem a degeneração do caráter. Causam divisões e despertam os dragões
fumegantes do coração, queimando tudo ao redor, deixando um rastro de fumaça e
dor, morte e sangue, guerra e choro.
Crises precisam ser vencidas, atravessadas, traspassadas,
derrotadas.
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